LASA2027 Navegar el colapso: reinventar la política, cuidar lo común

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Navegar el colapso: reinventar la política, cuidar lo común

Na última década, com velocidade inesperada, emergiram fenômenos que representam retrocessos até pouco tempo inimagináveis, com efeitos adversos sobre os direitos dos cidadãos, a qualidade democrática e o Estado de direito. Neste contexto, múltiplos conflitos armados e reconfigurações da ordem mundial acrescentam camadas de colapso e de crise civilizatória. No entanto, se olharmos com mais atenção, para além do estupor, podemos perceber que, simultaneamente, também vêm se gestando novas experiências progressistas. Essas experiências emergentes se observam em fenômenos múltiplos situados tanto em níveis de análise macro quanto meso e micro. Neste Congresso, queremos debater as diferentes dimensões do colapso sem nos limitarmos a ele, mas também aprender e discutir sobre ações, estratégias e iniciativas inovadoras que permitem navegar esse colapso e ir além dele.

Por um lado, assistimos ao surgimento de novas coalizões entre países que transformam os equilíbrios geopolíticos nas esferas militar, tecnológica e financeira em nível global. Por outro, continuam desenvolvendo-se instituições representativas e participativas nos contextos nacionais — de mandatos coletivos a sorteios, passando por renovadas modalidades de consulta e deliberação digital. Ademais, a inovação democrática segue propondo, em ondas sucessivas, uma frente à deterioração da representação política clássica, com resultados tanto de estrondoso fracasso quanto de notável contribuição, paradoxalmente associados à solidez das ecologias e projetos políticos tradicionais e das sociedades civis com as quais se relacionam.

A essas propostas somam-se outras, oriundas da mobilização e da organização social, que vão desde originais ativismos em prol da justiça fiscal ou tributária até articulações transnacionais dentro e fora das redes virtuais. Precisamente no campo digital, testemunhamos uma verdadeira revolução baseada nos avanços da inteligência artificial, que impactam não apenas as políticas públicas e o ativismo social, mas também a configuração de sociedades e culturas crescentemente pós-humanas ou biodigitais. Por fim, nesse mesmo contexto, frente às distopias ultraconservadoras e desumanizantes, erguem-se novos programas de sociedades futuras com base no paradigma dos cuidados (CEPAL 2025). Essa programática em direção a uma sociedade do cuidado nutre-se tanto de esforços institucionais de governos e da cooperação internacional quanto de iniciativas comunitárias.

Este Congresso propõe abrir um espaço para nos interrogarmos, discutir e analisar esses campos de experiências germinais que hoje permitem — ou insinuam a possibilidade de — reinventar a política e cuidar do bem comum. Consideramos que esse debate deve fomentar o estímulo para analisar espaços e ações embrionárias para a resistência e a inovação social e política, ao mesmo tempo em que se avaliam os obstáculos e retrocessos em ascensão. Em outras palavras, sustentamos que as transformações estruturais denotam colapsos que devem ser “navegados” sem apagar horizontes futuros, sem desconsiderar as tempestades presentes. Somente assim poderemos debater e aprender sobre o potencial real daquilo que precisa ser impulsionado. Navegar o colapso nos convida a compreender a força das ondas que provocam afundamentos, bem como as rotas que permitem chegar a novos portos.

Nesse sentido, propomos nos centrar em dois pontos de partida principais. Partimos da convicção de que sem mediação política não há tramitação civilizada do conflito, e de que sem cuidado do coletivo, a tragédia dos comuns deixa de ser uma previsão teórica para se converter em um destino empírico. Por isso, aproveitar este espaço de encontro para construir reflexão e debate orientados ao futuro não é apenas pertinente: é, ademais, uma tarefa necessária e promissora.

Transformações aceleradas: geopolítica, tecnologia e desigualdades

O marco em que emergem as novas experiências mencionadas é atravessado por transformações sociais, econômicas, políticas e culturais de grande magnitude. A América Latina e o Caribe não são alheios a essas dinâmicas. A região experimenta, simultaneamente, os impactos de reestruturações geopolíticas, mutações tecnológicas vertiginosas e desigualdades crescentes.

No plano geopolítico, a hegemonia militar, política, diplomática, financeira e até tecnológica dos Estados Unidos mostra sinais de esgotamento diante da ascensão da China — e de outras alianças asiáticas —, bem como da persistência da Rússia. Após o fim da Guerra Fria, as disputas deixaram de se organizar em torno de marcos ideológicos antagônicos para deslocar-se em direção a lógicas endógenas do capitalismo informacional ou de plataformas, caracterizado pelo papel central dos dados, das infraestruturas digitais e das corporações tecnológicas.

A rápida evolução tecnológica, as inovações contínuas e a expansão da inteligência artificial estão reconfigurando tanto a esfera econômica quanto a vida social e cultural, bem como a sustentabilidade ambiental. No entanto, esse dinamismo convive com um aprofundamento global da desigualdade. Na América Latina, considerando a herança dos processos de colonização e, em relação a isso, a persistência de níveis alarmantes de racismo, a concentração da riqueza é especialmente acentuada: os 10% mais ricos recebem renda em média 12 vezes superior à dos 10% mais pobres (contra uma proporção de 4 para 1 nos países da OCDE). Um em cada cinco habitantes da região continua em situação de pobreza (CEPAL et al., 2023). Por outro lado, a revolução tecnológica apresenta desafios profundos para uma região que desenvolveu economias baseadas na superexploração de bens primários (petróleo, lítio, etc.). Isso agrava os riscos de intensificar as crises ambientais na região e no mundo. Essa convivência perversa entre as promessas de desenvolvimento a partir de uma sociedade biodigital e a persistência de uma desigualdade interseccional, aliada a uma crescente crise ambiental, merece atenção especial.

Erosão dos pactos do pós-guerra e enfraquecimento estatal

A essas dinâmicas soma-se a deterioração acelerada dos pactos fundamentais que caracterizaram a ordem do pós-guerra do século XX. Os Estados de bem-estar, presentes de forma heterogênea na região e erodidos desde as crises dos anos 1970 e pelas reformas de ajuste estrutural dos anos 1990 na América Latina e no Caribe, enfrentam hoje um enfraquecimento ainda mais agudo. Mesmo os pactos fiscais que sustentam os Estados-nação encontram-se sob pressão.

Novas elites econômicas, e em muitos casos dirigentes, se desresponsabilizam do público, evadem ou abandonam compromissos contributivos tributários, viabilizando um cenário de Estados enfraquecidos ou desmantelados. Isso compromete seriamente a capacidade estatal de garantir direitos e prover bens públicos.

De modo paralelo, outro pacto fundamental — o dos direitos humanos decorrentes da Declaração Universal de 1948 e dos Pactos Internacionais de 1966 — também se encontra ameaçado. As escaladas bélicas, as crises migratórias, o avanço de tendências autocráticas e a influência de poderes de fato e criminosos tensionam severamente esses marcos normativos.

Polarização, deterioração democrática e deserção do público

O paradoxo contemporâneo é que, apesar da homogeneidade programática das disputas geopolíticas posteriores ao fim da Guerra Fria, no interior dos Estados-nação cresce a polarização. Enquanto os Estados se deterioram, também o fazem os regimes democráticos. As elites desertoras do público se entrincheiram, enquanto amplos setores cidadãos se distanciam dos núcleos exclusivos de decisão (Urbinati, 2023). Debilita-se assim a intermediação clássica — partidos, sindicatos, corporações — e crescem a desconfiança, o ceticismo e a antipolítica, com especial ênfase na América Latina e no Caribe.

Nesse clima, proliferam coalizões ultraconservadoras antidireitos que, com raízes locais e expressões nacionais diversas, avançam eleitoralmente e transformam regressivamente a democracia desde dentro das próprias instituições democráticas. Essas coalizões mobilizam a figura da família heteronormada como solução simbólica e material diante do desmantelamento estatal e dos direitos sociais. Quando os cuidados não podem ser providos pelo Estado democrático com garantia de direitos, é a família — e especialmente as mulheres — que absorve essa carga, aprofundando-se a divisão sexual do trabalho, o que deteriora ainda mais a democracia ao ampliar a exclusão de mais da metade da população da esfera político-pública e aumentar sua sujeição à esfera reprodutiva (Tronto 2013).

Redefinição regressiva da cidadania e corpos assassináveis

Os projetos conservadores antidireitos também erosionam a noção de cidadania construída no âmbito dos direitos humanos e dos Estados de bem-estar. Propõem que apenas certos grupos — homens, brancos, com recursos, “de boa família” — são merecedores de cidadania plena. Os grupos excluídos — migrantes, povos indígenas, afrodescendentes — tornam-se, portanto, corpos assassináveis, em bare life (Agamben 1998), cujas vidas ficam fora da proteção estatal infraestrutural e sob a esfera estatal em sua versão policial, militar e paramilitar, inclusive em articulação com atores criminosos nacionais e globais.

O desmantelamento do Estado complementa-se, assim, com um recorte da população considerada “merecedora” de direitos, bens e serviços públicos, bem como da proteção da própria vida.

Entre a incerteza e a possibilidade: olhar o novo sem nostalgia paralisante

A incerteza, o desânimo e a erosão de projetos de futuro podem reduzir a capacidade coletiva de imaginar alternativas e de reconhecer o novo em seu potencial transformador. Será possível que não estejamos percebendo plenamente novas experiências e possibilidades ao ansiar por passados perdidos ou temer futuros incertos?

Precisamente por isso, este Congresso propõe reunir-nos para ler o presente a partir das possibilidades e tendências emergentes, mais do que a partir do colapso como protagonista central. Propomos fazê-lo sem negar ingenuamente esse colapso. Reconhecer as iniciativas que reinventam a política e cuidam do bem comum — e os obstáculos e desafios com que se deparam — é parte central do trabalho intelectual e político que este encontro propõe impulsionar.

 Níveis de análise  Transformações da ordem mundial
(colapsos)
 Fenômenos emergentes
(inovação)
Macro Reestruturação geopolítica (EUA, China, Rússia) e suas implicações na América Latina e no Caribe. Avanço da China em inovação financeira e tecnológica.
Fim da Guerra Fria: deterioração dos Estados de bem-estar e do Pacto pelos Direitos Humanos. Transformação das alianças da América Latina e do Caribe diante das modificações ao T-MEC
 
Guerras multissituadas e poder militar em transformação.
 
Reordenamento de potências médias.
Revolução tecnológica e impacto econômico, social e cultural: capitalismo de plataformas, digital, feudalismo tecnológico, etapa financeira digital do capitalismo. Novas estratégias e projetos de acesso ao conhecimento. Propostas de regulação e redistribuição tecnológica.
Aprofundamento da crise ambiental e extração de bens primários. Novos ativismos indígenas, afro e outros
Transhumanismo, sociedade biodigital e desumanização (corpos assassináveis, descartáveis) impactam noções de cidadania e direitos. Novas linguagens e ativismos humanos e pós-humanos.
Meso Deteriorações/desmantelamentos de Estados (capacidades, administrações, políticas públicas-sociais, deterioração de pactos fiscais-tributários). Ativismos fiscais: possibilidades e obstáculos à redistribuição.
Deterioração de regimes democráticos (crescimento de tendências autocráticas). Mandatos coletivos.
 
Sorteio versus deliberação.
Deterioração da representação/intermediação clássica: antipolítica, desconfiança e queda de legitimidade em partidos políticos, sindicatos, corporações. Renovando as inovações democráticas: mudanças à luz dos balanços sobre inovação democrática desde os anos 2000.
Poucos contra muitos: elites flexíveis entrincheiradas, deserção do público, mobilização massiva, digital, sem intermediação. Transformação das elites: redes flexíveis e entrincheiradas.
Família heteronormada compensando o ajuste/deterioração estatal. Sociedade do cuidado versus desumanização (incidência a nível macro).
Crescimento de ultraconservadurismos antidireitos. Resistências e inovações frente a fenômenos ultraconservadores antidireitos.
Micro Novas subjetividades. Identidades pós-humanas.
Transformações na adesão religiosa e na espiritualidade. Expansão neopentecostal conservadora versus novas expressões híbridas: entre subjetividades ativistas pró-direitos (i.e. feministas, direitos humanos) e subjetividades ativistas religiosas progressistas.
Transformações discursivas.

Manosferas, incels versus desconstrução de masculinidades.

Negacionismos e fake news versus movimentos de verificação e transparência da informação.

Tradwives, tradfems versus novas expressões de sexualidades dissidentes

Referências

Agamben, Giorgio. 1998. Homo Sacer: Sovereign Power and Bare Life. Traducido por Daniel Heller-Roazen. Stanford: Stanford University Press.

Chancel, Lucas, Thomas Piketty, Emmanuel Saez, y Gabriel Zucman. 2022. Informe sobre la desigualdad global. World Inequality Lab. Licencia Creative Commons 4.0.

Comisión Económica para América Latina y el Caribe (CEPAL). 2025. La sociedad del cuidado: Gobernanza, economía política y diálogo social para una transformación con igualdad de género. Santiago: CEPAL.

Güezmes García, Ana, Nicole Bidegain Ponte, y María Lucía Scuro. 2023. “Igualdad de género y sociedad del cuidado.” Revista de la CEPAL 141: 179–192.

Tronto, Joan C. 2013. Caring Democracy: Markets, Equality, and Justice. New York: New York University Press.

Urbinati, Nadia. 2023. Pocos contra muchos: El conflicto político en el siglo XXI. Buenos Aires: Katz Editores.